A única resposta estritamente cristã para a pergunta devemos sempre dar esmolas? me parece ser: sim, devemos dar esmolas, e dá-las com abundância. Expliquemos melhor os fundamentos dessa cosmovisão que, aos trancos e barrancos, venho tentando melhor experimentar.
Jesus Cristo disse, sem abrir exceções, “Dá ao que te pede e não voltes as costas ao que te pede emprestado” (Mt 5,42).
No número 2447 do Catecismo da Igreja Católica lemos o seguinte:
As obras de misericórdia são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar, confortar são obras de misericórdia espiritual, como também perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporal consistem sobretudo em dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos. Dentre esses gestos de misericórdia, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna. E também uma prática de justiça que agrada a Deus.
Quem tiver duas túnicas, reparta-as com aquele que não tem, quem tiver o que comer, faça o mesmo (Lc 3,11). Dai o que tendes em esmola, e tudo ficará puro para vós (Lc 11,41). Se um irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser “Ide paz, aquecei-vos e saciai-vos, e não lhes der o necessário para manutenção, que proveito haverá nisso? (Tg 2, 15-16).
Essa nos parece ser, como gosta de dizer o Padre Paulo Ricardo, a resposta católica. Mas apesar disso é possível que ela não convença a todos – alguns provavelmente porque não a compreendem, outros porque com ela não concordam.
Como o meu objetivo aqui é buscar a ovelha pedida (inclusive aquela que constitui parte do que sou hoje), é preciso identificar como pensam aqueles que, geralmente por convicção, não dão esmolas. As pessoas não dão esmolas por diversos motivos: não têm dinheiro sobrando, entendem que aquele ato não será benéfico para o pedinte ou acreditam que ele será mesmo maléfico.
Muitos de nós temos as justificativas prontas, que utilizamos para não colocar a mão no bolso quando alguém nos pára na rua e pede um trocado.
Mas se Jesus Cristo é acima de tudo nosso Senhor e Redentor, alguém a quem damos ouvidos e cujos ensinamentos buscamos valorizar e colocar em prática, tenhamos em mente a orientação que Ele nos deu: Dá ao que te pede.
Dá ao que te pede, Ele disse. É verdade que Deus também nos deu a inteligência para discernir quando essa orientação deve ser seguida e quando ela, em razão de alguma circunstância particular, não se deve aplicar. Santo Tomás de Aquino já lembrava que a tarefa de discernir, a partir de uma diretriz moral, qual a conduta a ser tomada frente ao fato concreto da vida pode apresentar dificuldades que superam a capacidade do homem médio.
Eu, que também não tenho vocação para sustentar preguiçosos, que não gostaria de ter na minha biografia, já tão repleta de enxovalhos, a responsabilidade pela prorrogação do desemprego do pedinte ou o ter-lhe financiado algumas doses de crack, eu acredito que essa reflexão ganharia mais frutos se a discussão ocorresse sob outras premissas.
Deixe-me tentar esclarecer por que as usuais justificativas que são utilizadas para não dar esmolas são manifestamente falhas. Recolhi as dez desculpas mais comums, às quais acrescentei meus comentários:
1) A esmola estimula a vagabundagem.
Geralmente quem diz isso: a) não pensou no assunto com suficiente atenção; ou b) acredita que ficar num semáforo por várias horas recolhendo moedinhas de carro em carro é o melhor dos mundos na vida de um ser humano. Na minha opinião há coisas mais interessantes a fazer para ganhar dinheiro; e sobretudo muitas outras coisas que podem estimular a vagabundagem. Por exemplo: casar-se com um homem ou mulher atraente, carinhoso(a), inteligente, agradável e cheio(a) de dinheiro. Isso sim, tem um grande potencial de estimular a vadiagem. Ficar num semáforo sob o sol recolhendo moedinhas para no final do dia angariar trinta, cinquenta reais, bom, não é exatamente uma excelente forma de viver a vida. Seja sincero com você mesmo: o que você acha melhor e mais prazeroso: receber uma nota de R$50,00 de esmola, livre de imposto de renda, ou ser a pessoa que, tendo trabalhado e recebendo o pedido de ajuda de um mendigo esfarrapado, pode dar uma esmola de R$50,00? Então se você acredita que a esmola pode estimular a vadiagem (e talvez possa mesmo, em alguns casos), saiba que ela também pode abrir para o mendigo a rara oportunidade de se colocar diante de uma atitude amorosa e desprendida de uma pessoa que, com um sorriso no rosto, resolveu o problema dele pelos próximos dois dias. Se esse contato não despertar no pedinte suas forças mais reprimidas pela miséria das ruas, se ele, ao receber uma esmola generosa, não pensar “eu quero um dia ser alguém capaz de dar esmolas assim”, a culpa talvez não seja sua. Você pelo menos fez a sua parte.
2) As ordens religiosas da Igreja ajudam os pobres, por isso eu estou dispensado de fazê-lo.
A Igreja é um corpo, o Corpo de Cristo. De algum modo a caridade de um de seus membros beneficia a de outros. Mas a salvação é individual. A tarefa de cumprir as obras de misericórdia corporais (dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, visitar os doentes, visitar os presos, acolher os peregrinos e enterrar os mortos) é de todos, seja você membro de uma ordem religiosa, seja você um leigo.
3) Não vou sustentar preguiçosos que ficam na rua em vez de trabalhar.
Se você conversar dez minutos com alguns mendigos verá que a situação de vida deles é tão complicada que a palavra preguiça não é propriamente adequada para descrever seu estado de espírito. No final da faculdade de Direito, eu trabalhei na Promotoria de Justiça da Infância e Juventude de Belo Horizonte. Durante algum tempo eu fazia juntamente com o promotor de justiça o atendimento dos menores infratores – adolescentes que praticaram fato definido como crime, que no caso deles é chamado de ato infracional. Durante os atendimentos eu conversava com meninos de treze, quatorze, quinze anos, alguns presos por furto, outros por lesões corporais graves, alguns poucos por homicídio e etc, cuja vidas já estavam, em grande parte, delimitadas por fortes barreiras: provavelmente eles nunca teriam um emprego fixo que lhes rendesse mais que um salário mínimo, provavelmente eles só chegariam perto de uma faculdade na condição de flanelinhas. Além disso, provavelmente seus pais nunca se reuniram em torno da mesa do almoço para agradecer a Deus pelo alimento. O promotor de justiça e aquele rapaz esquisito do lado dele simbolizavam a espada fria da justiça, que lhes cortará a pele – da balança eles nunca ouviram falar. E você ainda acredita que dar uma esmola vai estimular a preguiça nesses meninos? Eu não acredito nisso. Alguém escreveu que, na porta da padaria, costumava responder aos apelos por moedinhas, sussurrados por alguns meninos, com expressões do tipo: “Claro, meu anjo!”, “Tudo bem com vocês hoje, meninada bonita?”. Essa mulher, no final das contas, acabava sendo procurada pelas crianças nem tanto pelas moedinhas ou pelo pão que ela lhes dava, mas pelo maravilhoso impacto, provavelmente inédito ou pelo menos tão raro como a passagem de um cometa, que sua voz carinhosa causava neles ao dizer aquelas palavras adoráveis. Então, meus amigos, antes de pensar que sua esmola pode estimular a preguiça, saiba que ela pode mostrar para os miseráveis uma dimensão da humanidade que eles não conhecem – e isso já deveria ser razão suficiente para que você buscasse oportunidades de dar mais esmolas e as desse com o coração bem aberto. Se você tem sérias razões para supor que a pessoa que lhe está pedindo esmola é um bonachão de marca maior (por exemplo, se ele está com o tênis mais caro do que o que você costuma usar, se ele está muito bem vestido, com o corpo forte – como diz o meu avô, “bom para bater uma laje), acho que não estarei falando besteira se entender ser possível, nesse caso, recusar a esmola e estimular o rapaz, com uma palavra amiga e caridosa, a procurar um serviço. Em geral, porém, a realidade das ruas não é bem essa.
4) Quando está sobrando dinheiro eu dou esmolas.
Lembra da história da viúva? Se você só dá o que lhe sobra, o valor de sua esmola é significativamente menor. Não sou eu quem está dizendo isso, mas o próprio Cristo (Lu 21,1-4).
5) Uso meu dinheiro para o sustento da minha família. E faz você muito bem.
Mas essa não é uma justificativa suficiente para não dar esmolas. Se alguém lhe pede um trocado e você realmente não tem condições de ajudar, dê outra coisa: um pão de sal, uma peça de roupa, uma palavra amiga, dois minutos do seu tempo, um olhar compreensivo, um sorriso de incentivo.
6) É o Estado quem deve ajudar essas pessoas através da assistência social, através dos nossos impostos.
Essa é a justificativa dos que querem terceirizar seus deveres religiosos ao Estado. A burocracia estatal pode e deve fazer algo pelos mais necessitados. Um dos objetivos da República Federativa do Brasil é “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais” (art. 3º, inciso III, da Constituição de 1988). Se pobres sempre os teremos entre nós (Jo 12:8), podemos nos esforçar para que não tenhamos miseráveis. Essa é uma outra questão, que exigiria a diferenciação entre pobreza e miséria sob a ótica da doutrina social da Igreja e da economia – o que não é nosso objetivo aqui. O que deve ficar claro é que no momento em que alguém lhe pede algo, você deve dar uma resposta. O assunto ali não são as responsabilidades estatais e sua omissão – sempre ela! – em implementá-las, mas o que Deus espera de você.
7) Eu sempre ajudo uma instituição de caridade, por isso não dou dinheiro para mendigos.
Se bem que uma boa parcela de quem utiliza esta justificativa não ajude, com regularidade, nenhuma instituição de caridade, mas apenas compre talvez, uma vez por ano, e olhe lá, um bingo da Paróquia que quase sempre ocorre de alguém, por acaso, nos oferecer nos momentos mais inesperados, certamente existem pessoas caridosas que sinceramente acreditam nessa forma exclusiva de ajudar ao próximo. Ótimo. Não deixe de ajudar as instituições de caridade. É um bom sinal da racionalidade humana organizar a prestação da caridade, dentro – quase sempre, mas também fora – das instituições religiosas. Mas convenhamos que não adianta você dar como resposta ao mendigo ou a criança que lhe pede uma moeda: eu ajudo a Creche Santa Luzia! Você percebe que destinar uma parcela de seu dinheiro para instituições de caridade não o isenta de responder, seja como for, àquele apelo específico que lhe foi dirigido?
8) Se eu der esmola para crianças, estou ensinando a elas que o mundo deve sustentá-la.
Em primeiro lugar, é uma notável pretensão sua achar que um ato isolado seu ensinará alguma coisa àquela criança, e que esse ensinamento será justamente esse que você espera esteja implícito. Geralmente essa justificativa vem acompanhada de algumas críticas aos pais das crianças – que a estariam explorando. É verdade, isso acontece mesmo. Usar crianças em semáforos para comover o coração dos mais frios e empedernidos corações não é coisa que se faz. Hoje em moro em Governador Valadares, MG, cidade em que rarissimamente vejo crianças pedindo esmolas nas ruas – tarefa que é desempenhada, se bem que com pouca frequência, pelos adultos. A solução que muitos encontraram para esse drama de consciência é levar no porta-luvas pacotes de biscoito, salsichas enlatadas, caixas de achocolatado ou até mesmo balas. Se aquela criança está sendo vítima de seus pais, talvez você possa ajudar a alegrar a sua noite com algumas guloseimas que ela provavelmente só experimenta no Natal.
9) O dinheiro que eu der para essa pessoa ela usará para comprar cachaça ou cigarros.
Isso pode realmente acontecer. Mas, se você deu a esmola com o coração, eu lhe pergunto: o que você tem que ver com o destino que o mendigo deu ao dinheiro que, a partir de sua doação, passou a integrar seu parco patrimônio? Faço um parêntesis para contar um breve caso. Em Volta Redonda, RJ, em uma audiência judicial de interrogatório de um estelionatário que havia surrupiado cerca de sessenta mil reais dos cofres do INSS através de uma engenhosa fraude, o juiz lhe perguntou: “Sr. José Roberto, onde está o dinheiro que o senhor auferiu com o crime?”. A resposta do acusado, um tanto conformado, foi: “Doutor, já faz mais de um ano que eu não ganhava mais dinheiro com isso. Na época, eu gastei todo o dinheiro com as mulheres…”. O que eu quero dizer é que na vida desgraçada do mendigo talvez não caiba, sem maiores preparações, um pão com mortadela, um filé com fritas ou um risoto de camarão. Você pode ficar contrariado quando o mendigo compra cachaça com o dinheiro da esmola que você deu porque isso é sinal de que ele já estava bem alimentado e, ainda assim, lhe pediu esmola. Se bem que tomar uma dose de cachaça ou fumar um cigarro não estejam entre os direitos fundamentais do homem e do cidadão, são prazeres que o homem médio não costuma se privar nem mesmo em épocas de vacas magras. Então, ainda nesse caso, acredito que a esmola tenha sido bem dada. Deus nos dá a liberdade de filhos. Dê ao mendigo a liberdade que Deus deu a você.
10) O dinheiro que eu der para essa pessoa ela usará para comprar drogas.
Isso pode realmente acontecer. Aqui o problema é mais grave. Com sua esmola você pode estar estimulando um vício que, em poucas semanas, pode levar aquela pessoa à morte. Trata-se de uma situação muito dramática. Se você tem certeza de que aquela pessoa vai usar o seu dinheiro para comprar droga, é certo que todo o conselho de anciões lhe sugerirá não dá-la. Mas essa certeza quase nunca é possível, a menos que você já conheça o pedinte e saiba, como dois mais dois são quatro, que ele investirá sua fortuna nas drogas. Nesse caso, você não dará a esmola. Porém, o grau de conhecimento que você tem da situação dele sugere que você talvez possa intervir, em benefício dele, de outra forma.
Esse texto é escrito em uma época em que o Governo Federal especializou-se em idealizar diversas bolsas, conforme a fórmula bolsa-x, sendo x qualquer palavra bonita (família, escola, saúde, alimentação, leite, gás etc) que justifique a manutenção de um grande número de desocupados em casa assistindo à televisão e falando bem (e principalmente votando nos candidatos) do governo. Segundo minha percepção, isso pode ter contribuído para retirar das ruas um grande número de pessoas que de outro modo estariam mendigando. Se esses programas estatais são um bem em si, outros dirão. É possível que consideradas todas as suas consequências (coisa que não fiz e provavelmente não terei capacidade de fazer) ele faça, a curto prazo, mais bem do que mal. Mas não há bem terreno que dure para sempre nem mal que nunca termine. Além disso, nem só de miseráveis contumazes é composto o conjunto univeso dos pedintes. Há bêbados, despejados, loucos de todo o gênero, retirantes, desaparecidos, desempregados, todos eles dependentes, por um tempo mais ou menos curto, da caridade de nós outros.
Em uma época em que todo mundo está empenhado em salvar o mundo à sua maneira e semelhança, em que todos os adolescentes de treze anos têm planos para salvar o planeta do aquescimento global, é natural que se prolifere a ideia de que a esmola tem a função específica de resolver um problema social. Não vejo as coisas dessa forma. A esmola que o cristão dá ao necessitado não pretende salvar o mundo ou resolver um problema social, mas sim apresentar-se como a face bondosa de Deus àquele a quem o mundo não costuma sorrir. Diante de um mendigo ou de um pedinte, você é chamado a agir como Jesus Cristo agiria se estivesse em seu lugar, como Deus age com seus filhos.
Quando você toma consciência de que você, rigosamente, não é o agente primeiro de sua riqueza (ou, vá lá, de seu patrimônio), e que tudo o que está sob seu domínio veio de Deus, você estará perto de compreender o que significa “De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8).