Vô Lidu: um contador de casos

No começo de sua vida adulta, meu bisavô Lidu, pai de minha avó materna, era um dos homens bravos de Conceição do Mato Dentro, MG; tinha os olhos azuis, de aspecto nobre. Apaixonou-se pela minha bisavó, a vó Lica, de origem humilde. Em razão disso foi deserdado pela família. Contra o parecer da família, casou-se. O respeito e o carinho que tinha pela esposa deixou na família uma profunda impressão de honestidade e desprendimento.

O ponto alto das reuniões da família era o momento de seu discurso. Ali todos ganhávamos a certeza: somos uma família, temos uma história. O Lidu contava o modo como se casou com a vovó; falava do que levaram para o novo lar: três panelas, duas colheres de pau… A família dele virou-lhe as costas: – Se quiser ficar com essa moça, está deserdado! – Bravo, enfrentou a própria família e se casou.

Nos discursos, ele acrescentava os netos que haviam nascido recentemente: – Neste ano mais um chegou à nossa família. – Numerava os filhos e os netos; registrava o número dos descendentes, atualizado a cada ano.

Começava o discurso assim: – Nunca frequentei bancos de educandários… – e aí prosseguia, sempre chorava nos momentos mais emocionantes, falava de seu amor pela vovó. Contagiados, os adultos de alma poética choravam também com ele. E ali estava eu, menino, aprendendo o que era família, descobrindo a força da voz que registra, do verbo que relembra, da palavra que abre caminhos… Eram momentos marcantes na vida de nossa família! Atento, eu ouvia sua voz grossa, já dando sinais de enfraquecimento, falar da sua vida, da vida da família, gesticulando, emocionado; contando casos de coragem, de desafios e de superação.

O vô Lidu é de Conceição do Mato Dentro, MG. Trabalhava com selas de cavalo, tarefa na qual contava com a ajuda das filhas. Criou os filhos com alguma fartura, embora com pouca variedade.

ig matozinhos3Um homem destemido. Bebia cachaça, entrava na Igreja de Matozinhos a cavalo na hora da Missa. Não gritava, não falava nada. Entrava, percorria o interior do templo, via e era visto; depois saía, respeitado.

Deixava o trabalho na sexta e só parava de beber no domingo. Quando bebia, delirava, fazia coisas estranhas. Chegava em casa à noite, com uma penca de amigos e exigia comida pronta. Cismava que as filhas deveriam buscar cavalo no pasto às 3h da manhã. Com faca de sapateiro nas mãos, fora de si, dizia que queria tomar sangue humano. Mandava acordar os meninos de madrugava. Quando se transformava dessa maneira, as filhas se escondiam em árvores e rezavam ave-marias. No fundo do quarto, minha bisavó recitava baixinho: Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa! E sempre aparecia alguém para ajudar…

A vó Lica sempre foi muito piedosa. No final da vida ficou cega em decorrência da diabetes. Já sem forças, andava apoiada nas filhas e nas netas. Ela tinha uma fala muito doce, muito mansa. Na minha infância, em torno de si, em seu apartamento no IAPI, a família se reunia praticamente todos os dias. As filhas e netas se revezavam na cama ao lado dela e nas cadeiras em volta. Contavam casos. Confraternizavam.

discurso2Na varanda, o vô Lidu observava o movimento do Conjunto IAPI, fumando cigarro de palha na janela. De vez em quando esticava o pescoço. Assuntando. Depois se aproximava e falava de suas emoções. Era sentimental. Suas histórias eram boas de se ouvir. Contava casos antigos, falava um pouco de cada filho e de cada neto. Gostava de tomar um vinho de mesa. Quando alguém levava uma garrafa aproveitava para tomar junto e tirar um dedo de prosa.

No começo de sua vida adulta, fazia arruaças e costumava confrontar o delegado de Conceição do Mato Dentro, que às vezes o prendia. Aí ele mandava bilhetes ameaçando represálias caso não fosse solto.

Levava consigo uma oração que a vó Lica fez e costurou em um paninho, para protegê-lo. Pois ele ‘ficava louco’. Ele era ‘muito danado, muito atrevido’. Certa vez estava brigando em um bar e a pessoa lhe deu seis tiros, e os seis tiros mascaram. A oração de minha bisavó era forte.

Em razão das rezas da vó Lica, apareceu na cidade uma caravana religiosa, com quem meu bisavô acabou embarcando. Despareceu por algumas semanas. Ninguém sabia que rumo havia tomado. Quando voltou, era um homem novo – não bebia mais cachaça, não saía mais de si. Passou a ser o Lidu que eu, criança, conheci.

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